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Milagres e a Civilização Moderna

por G. K. Chesterton

O Sr. Blatchford resumiu tudo o que lhe é importante em três frases. Elas são perfeitamente honestas e claras. Tampouco elas são menos honestas e claras por serem as duas primeiras falsas e a terceira uma falácia. Ele diz: “O cristão nega os milagres do muçulmano. O muçulmano nega os milagres do cristão. O racionalismo nega todos os milagres igualmente.”

Com o erro histórico das duas primeiras observações me ocuparei daqui a pouco. Concentro-me no momento na corajosa admissão do Sr. Blatchford de que o racionalista nega todos os milagres igualmente. Ele não os questiona. Ele não pretende ser agnóstico em relação a eles. Ele não suspende o juízo até que eles sejam postos á prova. Ele os nega. Frente a tal extraordinário dogma, perguntei ao Sr. Blatchford porque ele pensa não existirem milagres. Ele respondeu que o Universo é governado por leis. Obviamente, esta resposta é completamente inútil. Pois, não podemos considerar algo impossível porque o mundo seja governado por leis, a menos que conheçamos quais leis. Conhecerá o Sr. Blatchford todas as leis do Universo? E se ele não conhecer todas as leis, como será possível que ele conheça algo sobre as exceções?

Pois, obviamente, o mero fato de que uma coisa aconteça raramente, sob circunstâncias estranhas e que não haja nenhuma explicação que conheçamos, não é prova de que ela seja contra a lei natural. Isto se aplica aos gêmeos siameses, a um novo cometa, ou ao Radium três anos atrás.

O argumento filosófico contrário aos milagres pode ser facilmente considerado. Não há argumento filosófico contra milagres. Existem as leis da natureza, racionalmente falando. O que todo mundo conhece é o seguinte: há repetição na natureza. O que todo mundo sabe é que abóboras produzem abóboras. O que ninguém sabe é porque elas não produzem elefantes ou girafas.

Há uma e apenas uma questão filosófica sobre milagres. Muitos racionalistas modernos competentes não podem sequer admiti-la para si mesmos. O estudante mais pobre de Oxford na Idade Média teria entendido a questão. (Nota: como a última frase parecerá estranha em nossa época “iluminada”, posso explicar que sob “o reino cruel da superstição medieval” jovens pobres eram educados em Oxford. Graças a Deus, vivemos em melhores dias!) [1]

A questão sobre os milagres é esta: você sabe como uma abóbora se transforma numa abóbora? Se não, você não pode dizer se uma abóbora pode ou não se transformar numa carruagem. Isto é tudo.

Todas as outras expressões científicas que você está habituado a usar no café da manhã são palavras vazias. Você diz: “É uma lei da natureza que abóboras devam continuar sendo abóboras.” Isto apenas significa que abóboras, em geral, continuam sendo abóboras, o que é óbvio; mas não se diz por quê. Você diz: “A experiência nega tal coisa.” Isto apenas significa: “Tenho conhecido intimamente muitas abóboras e nenhuma delas se transformou em carruagem.”

Há um grande racionalista irlandês dessa escola (possivelmente relacionado ao Sr. Lecky) que quando soube que uma testemunha o vira cometer um assassinato, disse que poderia apresentar uma centena de testemunhas que não o viram cometê-lo.

Você diz: “O mundo moderno é contra isso.” Isto significa que uma turba em Londres, Birmingham e Chicago, num estado mental completamente “aboborado”, não pode fazer milagre por meio da fé.

Você diz: “A ciência é contra isso.” Isto significa que contanto que abóboras sejam abóboras, a conduta delas será “aboborada”, e não mantém nenhuma semelhança com uma carruagem. Isto é extremamente óbvio.

O que o cristianismo diz é apenas isto: que essa repetição na Natureza tem sua origem não numa coisa que lembra uma lei, mas numa coisa que lembra uma vontade. A expressão Pai Celeste do cristianismo é derivada de um pai terrestre. De maneira absolutamente idêntica, a expressão “lei universal” é uma metáfora de uma lei do Parlamento. Mas o cristianismo afirma que o mundo e sua repetição surgem por vontade ou Amor, tal como as crianças são geradas por um pai, e, portanto, que outras coisas podem surgir pelo mesmo motivo. Em resumo, o cristianismo acredita que um Deus que pode fazer algo tão extraordinário quanto abóboras continuarem sendo abóboras, é, como o profeta Habbakuk, capable de tout. Se você não considera extraordinário que uma abóbora seja sempre uma abóbora, pense de novo. Você sequer chegou às portas da filosofia. Você sequer viu uma abóbora.

A questão histórica contra os milagres é muito simples. Ela consiste em considerar os milagres impossíveis, e então afirmar que apenas um idiota acredita em impossibilidades: então declarar que não há nenhuma clara evidência a favor dos fatos miraculosos. Todo o truque é feito por meio do uso alternado da objeção filosófica e da objeção histórica. Se dizemos que os milagres são teoricamente possíveis, eles dizem: “Sim, mas não há evidência deles.” Quando coletamos todos os registros da raça humana e dizemos “Eis nossa evidência”, eles dizem: “Mas esses povos eram supersticiosos, eles acreditavam em coisas impossíveis.”

A questão real é se nossa pequena civilização da Rua Oxford está seguramente certa e o resto do mundo está seguramente errado. O Sr. Blatchford pensa que o materialismo dos ocidentais do século XIX é uma de suas maiores descobertas. Eu o considero tão tedioso quanto seus casacos, tão sujo quanto suas ruas, tão feio quanto suas calças e tão estúpido quando seu sistema industrial.

O próprio Sr. Blatchford, contudo, resumiu sua fé patética na civilização moderna. Ele escreveu uma divertida descrição do quão difícil seria persuadir um juiz inglês, numa corte de justiça moderna, da verdade da Ressurreição. É claro que ele está absolutamente certo; seria impossível. Mas não parece ocorrer a ele que nós cristãos podemos não sentir tão extravagante reverência aos juízes ingleses como aquela que o próprio Sr. Blatchford sente.

As experiências do Fundador do cristianismo talvez nos tenham imprimido uma vaga dúvida sobre a infalibilidade das cortes de justiça. Sei muito bem que nada induziria um juiz inglês a acreditar que um homem ressurgira dos mortos. Mas também sei muito bem que há muito pouco tempo nada induziria um juiz inglês a acreditar que um socialista pudesse ser um bom homem. Um juiz recusaria acreditar em milagres espirituais. Mas isso não seria porque ele fosse juiz, mas porque, além de juiz, ele é um cavalheiro inglês, um racionalista moderno, e algo como um antigo idiota.

E o Sr. Blatchford está completamente errado em supor que os cristãos e os muçulmanos negam os milagres uns dos outros. Nenhuma religião que se pensa verdadeira se preocupa com os milagres de outra religião. Ela nega as doutrinas da religião; ela nega sua moral; mas nunca considera útil negar seus símbolos e milagres.

E por que não? Porque essas coisas sempre foram consideradas possíveis por alguns homens. Porque qualquer cigano pode ter poderes psíquicos. Porque a existência do mundo dos espíritos ou de estranhos poderes mentais faz parte do senso comum de toda a humanidade. Os fariseus não questionaram os milagres de Cristo; diziam que eles eram feitos pelo demônio. Os cristãos não questionavam os milagres de Maomé. Diziam que eles eram feitos pelo demônio. O mundo romano não negava a possibilidade de Cristo ser um Deus. Isso era muito “inteligente” para eles.

Na medida em que a Igreja (principalmente durante o corrupto e cético século XVIII) insistia em que os milagres fossem uma razão para a fé, seu erro é evidente; mas não é o que supõe o Sr. Blatchford. Não é que ele pedia aos homens que acreditassem em algo tão inacreditável; é que ele pedia aos homens que se convertessem por algo tão corriqueiro.

O que importa numa religião não é que ela faça milagres como qualquer esfarrapado conjurador indiano, mas que ela tenha a verdadeira filosofia do Universo. Os romanos estavam muito dispostos a aceitar que Cristo fosse um Deus. O que eles negavam é que Ele fosse o Deus – a mais alta verdade do cosmos. E este é o único aspecto que vale a pena discutir sobre o cristianismo.

 

Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo

Tradução do artigo: Miracles and Modern Civilisation

Nota do tradutor: Este ensaio é um dos quatro que fazem parte da tremenda batalha travada entre Chesterton e Robert Blatchford, em 1903-04. Blatchford escrevera um livro intitulado Deus e Meu Próximo, que era um credo racionalista, ao estilo do século que acabara havia pouco tempo. Como editor do jornal Clarion, Blatchford generosamente abriu as páginas do jornal para os que dele discordavam, entre os quais, e principalmente, se incluía G.K. Chesterton. Os textos do grupo liderado por Chesterton veio a ser publicado num volume intitulado As Dúvidas da Democracia, mas os textos de Chesterton foram depois reunidos e publicados, pela Ignatius Press, sob o título Controvérsias com Blatchford. Há um delicioso trecho em Hereges em que Chesterton se refere à controvérsia dizendo: “… o Sr. Blatchford, que começou uma campanha contra o cristianismo e mesmo sendo advertido por muitos que isso arruinaria seu jornal, continuou por causa de um senso honorável de responsabilidade intelectual. Ele descobriu, contudo, que enquanto chocava indubitavelmente seus leitores, seu jornal muito prosperava. Passou a ser comprado – primeiramente, por todos que concordavam com ele e o queriam ler; depois, por todos que discordavam dele e queriam escrever-lhe cartas. Tais cartas eram volumosas (eu ajudei, fico feliz em dizer, a engordar o jornal) e eram geralmente publicadas quase sem cortes. A grande máxima do jornalismo foi assim acidentalmente descoberta (como aconteceu com a máquina a vapor): que se um editor conseguir enfurecer as pessoas suficientemente, elas escreverão, de graça, metade do jornal para ele.” Outro dos ensaios da controvérsia já foi traduzido por este blog: Por que acredito no cristianismo.

Fonte: Sociedade Chesterton Brasil